Uma Viagem à Pré-História em Quadrinhos - Parte 1

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prehistoriahq02E no princípio havia… Um pivete amarelo!

E eis que 2012 acabou, tal qual o Calendário Maia, mas não o mundo, que ganhou mais uma chance de mostrar que não é um caso perdido! Ótimo pra Quadrim, que tem a oportunidade de apresentar seu site novo e remodelado, inaugurando várias novidades, incluindo esta seção de matérias. E, por falar no novo, é bom lembrar que nada se faz da noite pro dia e qualquer empreendimento precisa, para sustentar-se, ser edificado sobre alicerces bem sólidos. Em qualquer área do conhecimento humano, foi necessário que alguns pioneiros dessem os primeiros passos, desbravando territórios desconhecidos e desafiando os limites estabelecidos.

Nos quadrinhos não foi diferente.

​Alguém sempre teve que tomar a iniciativa… Ou dar a cara à tapa! No nascedouro do que hoje é uma arte respeitada, foi preciso que um Richard Outcault resolvesse empregar ilustrações seqüenciais, ao invés de apenas texto, para contar a estória de seu Menino Amarelo. Também, em algum momento, algo como uma comichão de genialidade levou Will Eisner a introduzir uma humanização visceral em seus personagens; algo que, junto com questionamentos político-sociais, fez de seus quadrinhos do Spirit um retrato vivo e comovente de uma época, feito poucas vezes alcançado! O apuro literário encontrou um forte aliado nos primorosos traços de artistas como Burne Hogarth ou Neal Adams, que emprestaram fluidez e movimento aos personagens anatomicamente perfeitos que ilustravam. Uma expressividade artística poucas vezes vista na (até então) menosprezada oitava arte e que faria inveja até mesmo a DaVinci ou Michelangelo.

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Todos esses nomes, a despeito de sua relevância, são apenas alguns dentre muitos que contribuíram para a consolidação de uma indústria que, hoje, movimenta milhões diretamente ou através de franquias e licenciamentos de seus produtos. A maioria dos artistas, curiosamente, viu muito pouco dos lucros proporcionados por suas criações.

​É sobre esses caras que eu gostaria de falar aqui, neste espaço graciosamente cedido pelos companheiros da Quadrim! Dos que levantaram o véu do futuro e criaram um novo jeito de contar estórias. Daqueles que investiram suas carreiras num ramo editorial que fazia os profissionais “sérios” torcerem seus narizes! Escritores, artistas e – por que não? – alguns empreendedores que trouxeram até nós essa fonte inesgotável de diversão, emoção e também de cultura… Os nossos tão queridos e preciosos gibis!!! E finalmente descobrimos qual o objetivo e assunto desta coluna: a História das histórias em quadrinhos! Vamos sacudir o pó, abrir o baú e revirar a velharia. E, por falar em História, o que ela (que é o maior juiz dos fatos) diria dos quadrinhos terem sido rotulados, durante décadas a fio, como literatura menor ou entretenimento barato e pueril? Ou das acusações de influência perniciosa para a juventude? Ou até, pasmem, como instrumento do demônio?!

​Bem, nada melhor que a própria História para responder: muitos profissionais de quadrinhos já foram homenageados, não só em seus respectivos países de origem, como também internacionalmente. Há, porém, os casos em que o artista ou a obra em questão está em um patamar tão inatingível que foram agraciados com honrarias igualmente sem par! Um excelente exemplo é o caso do francês Jean Giraud, o imortal “Moebius”, que foi laureado por ninguém menos que o presidente François Mitterrand! Como se não bastasse, para calar definitivamente a boca de qualquer um que ainda insista em detratar esta nobre forma de arte, Watchmen, obra do genial Alan Moore, foi recentemente eleita como uma das cem maiores obras literárias do Século XX pela Time Magazine. Atentem, não se trata das cem melhores histórias em quadrinhos (lista na qual Watchmen ocuparia fácil o primeiro lugar), mas as cem melhores obras da literatura!!!

​​Não é preciso, como visto, perder o sono defendendo a banda desenhada contra seus caluniadores. Ela já é crescidinha o suficiente para que se defenda sozinha!

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​Bom, feita esta nem tão rápida introdução, passemos ao primeiro tópico desta coluna. E com “primeiro” quero dizer o início mesmo! A pré-história em quadrinhos. Quase que universalmente, é aceito que o Menino Amarelo (The Yellow Kid), de Richard Fenton Outcault, seria o primeiro trabalho em arte seqüencial publicado. Ou seja, o primeiro a reunir as características necessárias para ser definido como uma autêntica história em quadrinhos. Mas, como toda unanimidade é burra, vamos aqui analisar alguns fatos que podem desmentir a primazia do trabalho de Outcault. Ou não. O leitor decide!

​Vamos começar recordando como e em quais circunstâncias surgiu The Yellow Kid, uma estória tão atribulada e cheia de reviravoltas como as aventuras do próprio personagem. Próximo à virada do século, em 17 de Fevereiro do já distante ano de 1895, o jornal estadunidense The New York World, de propriedade de Joseph Pulitzer, publicou “At The Circus In Hogan’s Alley”, uma charge em painéis múltiplos, de autoria do desenhista Richard Outcault. Era protagonizada por um garoto dentuço, orelhudo e de cabeça avantajada, sempre metido num camisolão (azul, no início). Os cenários eram os guetos e becos da metrópole nova-iorquina, ambientação perfeita para a sátira política e crítica social. Razão pela qual, pouco depois de sua primeira aparição, o personagem principal passou a ser retratado com a cabeça raspada, para chamar atenção para os surtos de piolhos, problema comum sofrido pelas classes desfavorecidas retratadas nos desenhos. Antes da estréia no World, contudo, durante o ano anterior, Hogan’s Alley aparecera esporadicamente na revista Truth.

​Os cartuns ou charges já eram rotineiramente publicadas nos periódicos contemporâneos e, assim como atualmente, apresentavam idéias contidas em um único quadro. O de Outcault distinguia-se pelo desdobramento da narrativa para quadros contíguos. Ou seja, uma historieta contada através de seqüenciamento gráfico. A partir daí, a “tira” passou a ser publicada regularmente, fazendo bastante sucesso entre o público. No ano seguinte, o personagem, que se chamava Mickey Dugan, já exibia a cor amarela (que lhe deu seu nome) no camisolão, além de estampar nele suas falas ou frases irreverentemente panfletárias.

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​A crescente notoriedade de Hogan’s Alley (título original da série no New York World) logo atraiu a atenção da concorrência, particularmente de Willian Randolph Hearst, dono do New York Journal. Convencido por Hearst, Outcault mudou-se de mala e cuia para o Journal, levando sua criação consigo, publicada lá como “The Yellow Kid”, título que a popularizou. Claro que Pulitzer não digeriu nada bem a “traição” de Outcault e decidiu manter a publicação de Hogan’s Alley no World, passando ao artista George B. Luks a responsabilidade pelas novas estórias do Menino Amarelo. Imaginem: seria como se Stan Lee fosse para a DC, carregando o Quarteto Fantástico, Hulk, Thor e todas as suas demais criações. Então, dois jornais rivais publicando Yellow Kid simultaneamente era uma situação pra lá de desconfortável que só podia terminar em confusão. Não deu outra! Mútuas acusações de plágio levaram a um desgastante processo judicial que acabou com uma decisão de fazer inveja a Salomão: os direitos de publicação foram divididos entre ambos os periódicos, deixando tudo exatamente como estava antes da justiça intervir.

​Aliás, convém lembrar que foi dessa disputa pública (onde muita roupa suja foi lavada) e da cor do pijama do personagem que surgiu o termo “jornalismo amarelo” (“imprensa marrom” no Brasil) relacionado ao sensacionalismo jornalístico.

Com as bênçãos da Justiça, os dois jornais seguiram explorando a criação de Richard Outcault. Além de astuto nos negócios, Hearst tinha uma notável visão artístico-mercadológica! Foi dele a sugestão de que Outcault introduzisse balões para veicular as falas dos personagens (embora o próprio Mickey Dugan se comunicasse exclusivamente através dos dizeres em seu camisolão amarelo). Era o retoque final para formatar uma história em quadrinhos tal qual se conhece hoje. As tiras Hogan’s Alley e The Yellow Kid continuaram a ser publicadas até 1898, quando ambas foram encerradas. Antes disso, contudo, o pai do Menino Amarelo já havia se afastado, desapontado com a decisão judicial a respeito dos direitos autorais de seu personagem e também pelo preconceito do qual o vulgar carequinha de pijama encardido desde sempre fora alvo. Passou a atuar como free-lancer, criando outros personagens como Buster Brown, que alcançou relativo sucesso, mas nada comparado a Yellow Kid. Este talentoso americano, descendente de alemães, faleceu em 25 de Setembro de 1928, aos sessenta e cinco anos de idade, deixando seu nome e o de sua obra-prima indelevelmente gravado nos anais da História das histórias em quadrinhos!

Não se discute a importância histórica e qualitativa de Yellow Kid! Porém, seria mesmo justo afirmar que se trata da primeiríssima história em quadrinhos? É sabido que existiram outros trabalhos que procuravam contar uma estória através de ilustrações em seqüência, inclusive anteriores ao de Outcault. No entanto, o simples encadeamento de imagens não é o bastante. Para que seja considerada uma história em quadrinhos, a obra deve reunir um conjunto mínimo de condições. The Yellow Kid cumpre todas as exigências. Se foi a primeira a fazê-lo, já é outra conversa. Entre os que afirmam que sim e os que negam, existem argumentos igualmente razoáveis. Esta discussão, entretanto, vai ter que ficar para a segunda parte deste artigo, quando veremos outros alegados “primeiros” quadrinhos de todos os tempos, assim como determinaremos quais são os tais fatores determinantes de uma genuína HQ, além de investigarmos se algum outro trabalho, mundo afora, demanda o título atribuído à criação de Richard Outcault.

Até lá!

Antônio Armaged00m

Antonio \"Armaged00m\" Fernandes é publicitário e fã compulsivo de quadrinhos. Já publicou um punhado de HQ\\'s de forma independente ou em coletâneas de outros editores autônomos. Também escreve contos e fanfictions. Para os desconhecidos, pode parecer um sujeito esquisito. Opinião que permanece exatamente a mesma depois que se passa a conhecê-lo. Ultimamente, vive obcecado com a ideia de que o mundo realmente acabou no último 21 de Dezembro de 2012 e que tudo o que \\"vivemos\\" depois disso não passa de uma intrincada fantasia, produto da imaginação de uma menina afegã de sete anos, a única sobrevivente do apocalipse...

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