Entrando no mercado de Histórias em Quadrinhos – Parte 4: Quer Aumentar Suas Chances de Ter Trabalho No Mercado Americano?

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Na parte 4 de minha coluna, eu iria falar dos problemas das HQs de super-heróis e dos roteiristas brasileiros. Porém, achei melhor seguir o fluxo das três primeiras (e você pode ler a primeira, a segunda e a terceira) e falar de outra coisa que considero mais urgente.

A relação entre agentes e artistas.

Se você deseja entrar no mercado americano, precisa ler tudo isso com atenção. Se você JÁ ESTÁ no mercado americano ou JÁ ESTEVE, tem que ler de qualquer maneira.

Claro que, como agente da Space Goat Brasil, posso falar somente por ela e não pelas outras agências. Então falarei aqui como esse relacionamento funciona pela Space Goat. Sugiro que procure outras agências caso queira saber como cada uma trabalha e com certeza haverá algumas diferenças, embora a essência permaneça a mesma.

O relacionamento profissional é sempre baseado em necessidades mútuas, ou seja, você tem algo que quero e eu tenho algo que você quer. Isso é óbvio. Mas às vezes, nos meandros de um mercado, saber exatamente o que cada lado quer é meio penoso, pode haver ruídos na comunicação e isso acabar afetando o entendimento de alguém no meio do caminho de forma que pode configurar na perda da chance de um bom trabalho para qualquer um dos lados.

Antes de partir para os detalhes, há uma regra CRUCIAL: 50% do sucesso de um artista pegar trabalho é mérito dele e os outros 50% é mérito da agência. Agente e artista precisam se ajudar mutuamente caso o artista queira trabalho e a agência queira sua porcentagem.

Tudo começa com o editor. Editores editam revistas, ou seja, é o trabalho deles fazer todo o acompanhamento de uma revista – da ideia até chegar ao leitor, passando por todos os preocessos entre esses dois – e no meio da administração de uma revista, algum artistas sai, abrindo uma vaga. Pode ser vaga de desenhista, arte-finalista ou colorista.

Vamos dizer que José Ditor precisa de um desenhista. O que ele faz?

José Ditor tem duas opções:
1 – Procurar uma agência de representação de artistas, como a Space Goat; ou
2 – Avaliar artistas em algum evento/convenção.

Porém, devido ao caráter urgente de manter a engrenagem rolando, não dá tempo para esperar conhecer artistas em um evento/convenção, de modo que em 90% dos casos, alguém como José Ditor irá procurar uma agência.

Normalmente, José Ditor tem uma ideia de que tipo de estilo procura devido ao título que tem vaga em aberto. Se for para algo como Superman, quase qualquer estilo serve, pois o personagem e seu universo é bem amplo. Se for algo como Monstro do Pântano, não é qualquer estilo de desenhista que se encaixa.

Se for o primeiro exemplo, ele irá procurar a agência – como a Space Goat – e dizer o que quer. A agência então irá mostrar os artistas disponíveis representados por ela. E esse “irá mostrar” significa tão e somente páginas em sequência atualizadas. Cinco (5) são suficientes.

O que significa “páginas em sequência atualizadas”? São páginas que seguem uma ordem. Por exemplo, uma sequência que vai da página 7 à página 11 de um roteiro. E o que são “atualizadas”? Significa que elas precisam ser suas amostras mais recentes.

José Ditor acaba gostando dos artistas A, B e C, deixando mais uns 15 de lado. Ele acabará perguntando quanto tempo tem a amostra de cada um deles. O agente diz, por exemplo:

“A amostra do artista A é desse mês. A do artista B tem três meses. A do artista C é do final do ano passado.”

São ENORMES as chances de José Ditor fazer o seguinte: “A do artista C tem muito tempo. Preciso de algo atual dele. A do artista B, quero ver como anda o trabalho dele. Passe um teste para ambos para semana que vem. Vamos manter o artista A na manga. Assim que os outros dois entregarem suas amostras, verei o que faço.”

Agora, vamos analisar cuidadosamente a situação.

Um teste normalmente tem cinco páginas, porque é uma amostra nova. Na cabeça de um editor, o “para semana que vem” significa “quero a amostra em cinco dias. Isso porque ele levará em conta que os artistas sejam capazes de fazer uma página por dia como o mercado pede.

Vamos supor que os artistas B e C entregaram em cinco dias.

José Ditor irá olhar as amostras deles, comparar com a amostra do artista A e irá decidir por um, fazendo uma proposta. “Contrato para cinco edições, pago US$ 120,00 a página”, é um exemplo. O agente levará a proposta ao artista e cabe a ele aceitar ou não. Se aceitar, o agente faz toda a burocracia e trâmites para que o contrato seja feito e assinado por todos. Além disso, o agente irá coordenar a agenda do artista para que ele entregue as páginas a tempo.

Caso o artista não aceite, José Ditor terá que escolher entre os outros dois artistas, fazendo uma nova proposta com o que ele acha que o trabalho do artista vale. E assim vai até ele achar um artista.

O mesmo vale no caso de arte-finalistas e coloristas.

Quais são as variantes aí? Vamos supor que artista B entregou o teste nos cinco dias e o artista C levou sete dias para entregar as amostras. Esses dois dias de diferença contarão MUITOS PONTOS CONTRA o artista C, pois mostra que ele é mais devagar para desenhar. E pode ser que, ao chegar no quinto dia, José Ditor tenha decidido entre artista A e B e nem adianta mais artista C entregar qualquer coisa.

Vamos dizer que todos os três foram avaliados – ou seja, artistas B e C entregaram a tempo – e José Ditor escolheu o artista B, que aceitou a proposta e assinou contrato. Parabéns ao artista B, está com um novo trabalho. O que resta para os artistas A e C?

Eles continuam no catálogo de artistas representados da agência. E o que isso significa? Que precisam continuar se ajudando mutuamente para conseguir trabalhos. E como fazer isso?

1 – O artista precisa manter seu portfólio atualizado

Gente como José Ditor quer ver o que o artista é capaz de fazer AGORA. Não interessa a ele o que o artista fez seis meses, um ano ou dois atrás. Artistas melhoram. Quanto mais um artista exerce sua arte, mais ele melhora. Um editor quer ver aquilo pelo qual ele pagará. E outra, um editor quer ver se no nível atual de arte dele o artista serve para o título que tem uma vaga aberta, se o estilo encaixa.

Qual é a frequência ideal?

Dez (10) páginas ao mês, ou seja, duas (2) amostras de cinco (5) páginas.

E por que isso? Isso nos leva ao próximo tópico.

2 – Variedade

Quanto maior for a variedade nas amostras, mais chances um artista tem de pegar um trabalho.

Ou seja, faça uma amostra de super-heróis, outra de terror, outra de ficção-científica, outra de qualquer outro gênero e assim vai. Com um leque de opções tão grande, as chances de achar um título para seu trabalho são bem maiores por você se encaixar em mais tipos de histórias.

Um artista que faz amostras atualizadas e com este grau de variedade dá um poder enorme de negociação ao seu agente, pois este pegará as amostras dos últimos três meses no máximo – configurando então seis (6) amostras – e mostrará ao editor, que verá que o artista tem regularidade, cumpre prazos e tem evolução, entre outros quesitos que criarão nele a maior arma que um artista pode ter: confiança.

3 – Confiança

O mercado americano de quadrinhos é pautado no prazo. Cada título tem um dia para chegar às comic shops e atrasar um título é multa que a editora recebe das distribuidoras e comic shops. Ou seja, NÃO PODE atrasar.

Para que isso não aconteça, o editor precisa confiar nos artistas com quem trabalha.

Se você é alguém que ele não conhece (ou alguém que já trabalha no mercado, mas que nunca trabalhou com ele), ele precisa conhecê-lo. E ele só irá conhecê-lo através do agente. O agente fornecerá todas as características do artistas, não só as boas, mas incluindo as ruins: “Este aqui, por exemplo, é bom por motivos x, y e z, mas não é muito rápido. Dependendo da página leva dois dias para fazê-la.”

Prazo e confiança só são conseguidos com próximo tópico.

4 – Comunicação

Qualquer política na maneira de trabalhar precisa ser comunicada. Se o artista tem um método/maneira de trabalhar, isso precisa ser deixado claro tanto para o agente quanto para o editor. O editor deve fazer o mesmo para o artista e para o agente. E o agente precisa ser o diplomata/coordenador entre os dois.

Da mesma maneira, qualquer imprevisto precisa ser comunicado. “Nesse prazo, consigo entregar 15 páginas, não 20. Então acho que precisaria de um artista tapa-buraco pra fazer as cinco restantes.”, é um exemplo, pode dizer o artista. “Ao invés de fazer cinco edições de Homem-Aranha, você poderia fazer três edições de Homem-Aranha e duas de Motoqueiro Fantasma? Precisamos que alguém tape o buraco durante duas edições até acharmos alguém oficial para o cargo.”, pode ser algo vindo do editor.

Imprevistos acontecem. Acidentes, parentes doentes, muita coisa pode acontecer, mas nada que uma comunicação bem feita não resolva. Uma comunicação bem feita não afeta o artista aos olhos do editor e vice-versa, muito pelo contrário.

Um artista precisa administrar a carreira tão bem quanto criar suas artes. E nisso, o papel do agente é fundamental. Ambos trabalham juntos, não um contra o outro.

Um artista precisa administrar a carreira tão bem quanto criar suas artes. E nisso, o papel do agente é fundamental. Ambos trabalham juntos, não um contra o outro.

Aproximando

A aproximação entre artista e agente deve ser muito cuidadosa. O artista quer um emprego, o que só pode ser conseguido com a aprovação do editor. O agente procura facilitar isso.

Para que seja facilitado, um acordo entre artista e agente precisa ser feito. Além do que já foi mostrado nos outros textos dessa coluna e o que foi mostrado neste aqui, há mais detalhes a serem vistos.

Como mencionei antes, cada agência trabalha de uma maneira e você deve procurar aquela que mais lhe agrada/combina com sua filosofia de trabalho. Desse modo, posso falar da Space Goat apenas.

Como trabalhamos:

Lembrando que as coisas funcionam como já foi explicado aqui, segue o esquema abaixo.

– Criamos uma base de portfólios de todos os artistas.

Além de os artistas ficarem expostos no site da Space Goat, com um perfil e amostras, criamos pastas e arquivos personalizados de cada um para enviar para os editores.

– Os editores escolhem os artistas.

Os editores não falam para nós de antemão que existem vagas, pois eles já sabem que temos artistas. Então eles nos contactam pedindo gente ou alguem em especifico.

Então não adianta chegar em um agente dizendo algo como “Oi, sou fulano, sou arte-finalista e aqui está uma amostra do meu trabalho. Tem vaga pra mim?”. As vagas surgem conforme a demanda do mercado. E para querer uma delas quando surgir, suas amostras precisam estar em dia.

O lance é que esse mercado é muito competitivo, então não tem vagas para todo mundo e nem sempre. O que fazemos é ter sempre o nosso nome e os nomes dos artistas na cabeça dos editores. Eles precisam lembrar que os artistas existem e com isso, só mantendo amostras atualizadas.

Em uma analogia, o editor é o cliente, o artista é o produto, a agência é o supermercado. O cliente já sabe que o supermercado tem produtos. O cliente entra e escolhe o que quer. Em outras palavras, o editor já sabe que o agente tem artistas. Ele entra e escolhe o que quer.

A Space Goat funciona com contrato, onde o artista é representado pela Space Goat por um determinado tempo e por uma determinada porcentagem por página. Com esses detalhes em acordo por ambas as partes, começa-se a colocar o plano para arrumar trabalho em prática.

O editor é como um cliente entrando em um supermercado, onde este é o agente e os artistas são os produtos que ele procura.

O editor é como um cliente entrando em um supermercado, onde este é o agente e os artistas são os produtos que ele procura.

Quem são os artistas que interessam à Space Goat?

Nosso alvo são artistas que queiram se destacar. Para isso precisamos de gente focada. De gente que mantenha a produção, a máquina girando, as engrenagens funcionando. Estando com trabalho ou não. Se estiver com trabalho e mantiver o processo, isso ganha a confiança do editor e você estará sempre publicando. Se estiver sem trabalho e mantiver o processo, suas chances aumentam consideravelmente para conseguir trabalho.

Porque foi Jack Kirby o grande responsável pelo surgimento da Marvel? Porque ele era o único que conseguia manter as engrenagens da máquina girando: produção, gente.

Porque foi Jack Kirby o grande responsável pelo surgimento da Marvel? Porque ele era o único que conseguia manter as engrenagens da máquina girando: produção, gente.

Tudo explicado aqui é uma estratégia, um modelo de como os negócios funcionam. Então procuramos gente comprometida com esse modelo, comprometida a segui-lo.

Fica impossível dar continuidade ao trabalho do artista se ele atrasa muito a entrega de páginas para as editoras ou não se adapta a imprevistos durante a produção de uma revista. Para aqueles que não tem trabalho, fica impossível conseguir um se não entregar amostras sempre mais recentes.

O que fazemos nada mais é do que uma estratégia para manter o nome do artista – e da Space Goat – fresco na mente dos editores, pedindo por mais.

Não adianta “testar” as agências. Algo como “vamos ver o que a agência tal pode fazer por mim”, achando que só procurarmos algo para o artista resolverá. Muitos artistas tem uma postura como “Topo trabalhar com vocês, mando duas amostras, se você não arrumar trabalho, estou fora”. De novo, precisa entender que são os editores que precisam se lembrar dos artistas. E eles lembrarão através de amostras impressionantes e sempre frescas. Não adianta você ter tempo de mercado se o editor não lembra quem você é. Então, tempo de mercado, na maior parte do tempo, não basta.

A não ser que seja alguém que esteja sempre sob os holofotes, como Mike Deodato e Ivan Reis. Para chegar em um nível desses, você precisa sempre produzir. Se estiver com trabalho, procure sempre entregar no prazo e se adaptar às mudanças. Se estiver sem trabalho, sempre faça amostras. Se não conseguir trabalho com um determinado editor na primeira, toda vez que ele tiver vaga e suas amostras aparecerem, uma hora ele se lembrará de você e ao ver sua evolução, uma hora irá te escolher.

Vendo o que Ivan Reis passou no início de carreira – e serve para aqueles que já tem uma carreira, mas não conseguem regularidade – nota-se que se você não mantém a máquina funcionando, dificilmente vai para algum lugar:

Então se você é alguém que deseja construir um plano para conseguir um determinado objetivo e segui-lo, você é alguém que a Space Goat deseja representar.

Na próxima, enfim, falarei dos problemas das HQs de super-heróis e dos roteiristas brasileiros.


EMÍLIO BARAÇAL tem 33 anos e é roteirista profissional desde 1996, trabalhando com audiovisual. Atualmente é agente e caça-talentos da Space Goat Productions Brasil, buscando artistas para as mais diversas editoras americanas, como Marvel Comics, DC Comics, Image Comics, Dark Horse Comics, entre outras. É também criador do selo Supernova Produções de quadrinhos nacionais com parceiros como Geraldo Borges (DC Comics), JP Mayer (DC Comics), Jack Herbert (Dynamite Entertainment), Mat Lopes (Image Comics), entre outros.

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Comentários

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9 Thoughts on “Entrando no mercado de Histórias em Quadrinhos – Parte 4: Quer Aumentar Suas Chances de Ter Trabalho No Mercado Americano?

  1. Excelente coluna, seguirei a risca essas dicas para um dia conseguir alcançar a meta de se tornar quadrinista.
    Por enquanto, terminando fanzines e ilustras no meu site.

  2. como funciona para quem quer fazer publicação independente no mercado americano. A agencia trabalha com isso.

  3. Daniel alves oliveira|

    Gostaria de entrar para uma agencia e gostei muito do metodo de trabalho de vocês, como q eu faço para mandar amostras?

  4. eu gostaria de saber se os testes de cinco paginas em sequência para mandar para o agente são de textos mandados pelo editor ou agenciador, ou textos do proprio desenhista.

  5. pedro arraes|

    eu gostaria de saber se os testes de cinco paginas em sequência para mandar para o agente são de textos mandados pelo editor ou agenciador, ou textos do proprio desenhista.

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